Neurodivergência

"Eu odeio Carnaval": validando a preferência pelo silêncio

O Carnaval é comumente associado a alegria coletiva e participação praticamente obrigatória. Mas para muitas pessoas neurodivergentes, essa época representa sobrecarga sensorial, ansiedade e esgotamento. Entenda por que o silêncio também é uma escolha válida.

Lucas Labrunetti Zwerkovoski
Lucas Labrunetti Zwerkovoski
Psicólogo · CRP 06/201987

3 min de leitura

O Carnaval é comumente associado a um período de alegria coletiva, sociabilidade intensa e participação praticamente obrigatória. Manifestar o desejo de não vivenciar essa experiência costuma gerar estranhamento, julgamentos e cobranças por parte da sociedade. Entretanto, no contexto da neurodivergência, negar-se a participar dessa comemoração é uma forma de o indivíduo preservar e atender às suas necessidades internas.

Para muitas pessoas neurodivergentes, o Carnaval representa um aumento significativo de demandas sensoriais: sons intensos, multidões, cheiros fortes e imprevisibilidade na rotina. Esses fatores podem provocar sobrecarga, ansiedade, irritabilidade e esgotamento emocional em indivíduos hipersensíveis. O sofrimento atravessa cada um de maneira singular. Não há uma experiência universal do Carnaval; existem experiências individuais.

O mal-estar emerge quando o sujeito se vê pressionado a corresponder a ideais sociais que não dialogam com seus limites internos. A ideia de que é preciso "aproveitar", "se soltar" ou "curtir como todo mundo" pode funcionar como um imperativo do senso comum, gerando sentimentos de inadequação, fracasso, repressão e/ou exclusão quando não é possível ou desejável atender a essa expectativa. Nesses casos, o silêncio e o recolhimento não devem ser interpretados como sinais de patologia, mas como respostas de preservação da subjetividade.

A pressão social para "se divertir" tende a ser ainda mais intensa em datas culturalmente marcadas, como o Carnaval. Lidar com essa pressão envolve, em primeiro lugar, a possibilidade de escutar o próprio desejo e autorizar-se a sustentá-lo. Em muitos casos, é preciso trabalhar a culpa ilusória associada a dizer "não", bem como a ideia de que recusar convites equivale a rejeitar pessoas ou vínculos. Entretanto, um vínculo saudável se sustenta na possibilidade de conviver com as diferenças e pluralidades; verdadeiros laços sociais possuem a capacidade de compreender os motivos e as necessidades do outro nesse momento.

O recolhimento pode cumprir uma função importante de regulação emocional, permitindo ao sujeito reorganizar-se internamente, reduzir o impacto dos excessos e preservar recursos psíquicos. Reconhecer esse movimento é reconhecer o direito ao próprio ritmo. É um direito do sujeito neurodivergente simbolizar suas datas e comemorações, visto que cada indivíduo possui uma maneira singular de perceber a realidade.

Aprender a comunicar limites de forma clara e simples, sem a necessidade de longas justificativas, é um passo importante na construção da autonomia subjetiva.

Sob uma perspectiva clínica e ética, promover um olhar mais inclusivo sobre o Carnaval implica reconhecer que o lazer não precisa assumir uma forma única. Para alguns sujeitos, a vivência festiva será fonte de prazer e encontro; para outros, o silêncio, o descanso e a previsibilidade serão fundamentais para o cuidado de si. Nenhuma dessas posições é superior à outra.

Afirmar "eu odeio Carnaval" pode ser menos uma negação da festa e mais uma escolha sobre o próprio modo de estar no mundo. Reconhecer e legitimar essa escolha é um gesto de cuidado, escuta e respeito à singularidade, sendo estes princípios fundamentais tanto no cuidado psicológico quanto na construção de uma sociedade verdadeiramente inclusiva.

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Lucas Labrunetti Zwerkovoski
Sobre quem escreveu

Lucas Labrunetti Zwerkovoski

Psicólogo · CRP 06/201987

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